{"id":9822,"date":"2021-07-12T20:17:04","date_gmt":"2021-07-12T23:17:04","guid":{"rendered":"https:\/\/uenf.br\/portal\/?p=9822"},"modified":"2021-07-12T20:17:04","modified_gmt":"2021-07-12T23:17:04","slug":"bolsonaro-e-o-cristofascismo-brasileiro-relacao-cristianismo-e-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal1.uenf.br\/portal\/noticias\/bolsonaro-e-o-cristofascismo-brasileiro-relacao-cristianismo-e-politica\/","title":{"rendered":"Bolsonaro e o cristofascismo brasileiro: rela\u00e7\u00e3o cristianismo e pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Professor da UENF, te\u00f3logo F\u00e1bio Py afirma que rela\u00e7\u00f5es com igrejas crist\u00e3s \u00e9 o que elegeu e sustenta o autoritarismo do presidente Bolsonaro<\/strong> <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uenf.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/foto-academico-724x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9824\" width=\"465\" height=\"657\"\/><figcaption>F\u00e1bio Py<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Em 1970, a te\u00f3loga alem\u00e3&nbsp;Dorothee&nbsp;S\u00f6lle&nbsp;criou o termo \u201ccristofascismo\u201d para se referir \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre o partido nazi e as igrejas crist\u00e3s no desenvolvimento do Terceiro Reich. Em 2020, ao lan\u00e7ar o livro \u201c<em>Pandemia&nbsp;cristofascista<\/em>\u201d (Editora Recriar), o tamb\u00e9m te\u00f3logo F\u00e1bio Py, docente do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Pol\u00edticas Sociais da UENF, resgatou o termo, trazendo-o para o contexto brasileiro. O&nbsp;cristofascismo&nbsp;brasileiro \u00e9, segundo Py, a alian\u00e7a entre igrejas crist\u00e3s e&nbsp;bolsonaristas&nbsp;para a implanta\u00e7\u00e3o de um governo autorit\u00e1rio, com caracter\u00edsticas neofascistas&nbsp;e ultraliberais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o muitas as analogias com o&nbsp;cristofascismo&nbsp;alem\u00e3o. Assim como Hitler, Bolsonaro utiliza jarg\u00f5es crist\u00e3os como parte preponderante de seus discursos, como o cl\u00e1ssico \u201cConhecereis a verdade e a verdade vos libertar\u00e1\u201d. Assim como o ditador nazista, o presidente brasileiro tamb\u00e9m participa de eventos promovidos pelas igrejas crist\u00e3s, relacionando-se com seus l\u00edderes. E, dentre suas estrat\u00e9gias para al\u00e7ar o poder e manter sua imagem em alta, se vale de seguidas convers\u00f5es ao cristianismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Py, o&nbsp;cristofascismo&nbsp;bolsonarista&nbsp;\u201cpromove-se por meio de uma teologia pol\u00edtica autorit\u00e1ria, pautada hoje no clima apocal\u00edptico do&nbsp;coronav\u00edrus, baseada no \u2018\u00f3dio \u00e0 pluralidade democr\u00e1tica\u2019. Esse \u00f3dio \u00e9 salpicado por t\u00e9cnicas governamentais de promo\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o, de \u00f3dio aos setores \u2018heterodoxos\u2019. Diante da expans\u00e3o do&nbsp;coronav\u00edrus&nbsp;no Brasil, foi somada sua&nbsp;caracter\u00edstica&nbsp;antidemocr\u00e1tica&nbsp;ao discurso economicista como justificativa&nbsp;para a&nbsp;explicita permiss\u00e3o da \u2018pol\u00edtica da morte\u2019 eug\u00eanica cujos alvos s\u00e3o os pobres, os mais velhos, os diab\u00e9ticos e os hipertensos\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA artimanha constru\u00edda pela c\u00fapula o desenha numa&nbsp;cristologia&nbsp;profana, apontando-o como messias, servo sofredor, ungido e eleito da na\u00e7\u00e3o. Faz isso para reagrupar as for\u00e7as a fim de manter,&nbsp;a duras chicotadas, a implementa\u00e7\u00e3o de medidas ultraliberais que hoje entregam \u00e0 morte os mais vulner\u00e1veis\u201d afirma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua an\u00e1lise Py salienta que, em resposta ao contexto mundial e brasileiro da pandemia de Covid-19, Bolsonaro acirrou ainda mais a associa\u00e7\u00e3o de seu governo ao cristianismo, evocando uma esp\u00e9cie de \u201cguerra dos deuses\u201d, como define Michel&nbsp;Lowy.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNessa guerra pelo Deus crist\u00e3o, Bolsonaro alimenta a base de seu governo autorit\u00e1rio ao&nbsp;refor\u00e7ar sua gest\u00e3o do ide\u00e1rio manique\u00edsta. Ao assumir-se como presidente dos crist\u00e3os,&nbsp;simplifica os conflitos pol\u00edticos, que passam a transubstanciar-se em embates entre bem versus mal. Em tal arranjo,&nbsp;a guerra dos deuses se traveste na luta entre aqueles que representam o mal, em uma alegoria caricatural dos \u2018comunistas\u2019, dos \u2018humanistas\u2019, ou dos \u2018petistas\u2019, e entre aqueles tamb\u00e9m alegoricamente expressos como \u2018cidad\u00e3os de bem\u2019\u201d, diz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta entrevista \u00e0 ASCOM\/UENF, F\u00e1bio Py fala sobre as causas hist\u00f3ricas para a ascens\u00e3o do&nbsp;cristofascismo&nbsp;no Brasil, chamando a aten\u00e7\u00e3o para o legado da ditadura militar \u2014 cujo ide\u00e1rio n\u00e3o foi apagado com a volta da democracia \u2014 bem como para a responsabilidade do \u201cpetismo\u201d para a ascens\u00e3o dos evang\u00e9licos no poder. Segundo o professor, mais dif\u00edcil que vencer Bolsonaro nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es, ser\u00e1 desarmar o&nbsp;bolsonarismo. Veja a entrevista:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ASCOM &#8211; Segundo a narrativa do Novo Testamento, Jesus era a personifica\u00e7\u00e3o do amor ao pr\u00f3ximo. O presidente Bolsonaro j\u00e1 deu mostras suficientes de seu car\u00e1ter racista,&nbsp;homof\u00f3bico, mis\u00f3gino, agressivo, arrogante e completamente insens\u00edvel \u00e0s mortes pelo&nbsp;coronovar\u00edrus. Como podemos entender este fen\u00f4meno no qual um candidato t\u00e3o distanciado desse ideal crist\u00e3o possa, ao mesmo tempo, para algumas parcelas da popula\u00e7\u00e3o, ter sua imagem aproximada \u00e0 de Jesus Cristo?&nbsp;<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>F\u00c1BIO &#8211;<\/strong>&nbsp;Existe um ide\u00e1rio medieval de que Jesus \u00e9 o amor encarnado, dono de uma pr\u00e1tica pacifista. Esta \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o do catolicismo hegem\u00f4nica,&nbsp;contudo,&nbsp;alguns textos do evangelho destoam disso. Eu n\u00e3o sei dizer que&nbsp;ser pac\u00edfico, no mundo antigo, era voc\u00ea sair da sua casa e largar sua fam\u00edlia como as narrativas indicam nos evangelhos. E tampouco falar que n\u00e3o veio trazer paz, mas espada, como Jesus indica aos ap\u00f3stolos. Ent\u00e3o esse \u00e9 o primeiro elemento que tem que ser problematizado: essa imagem de um Jesus pac\u00edfico, que d\u00e1 a outra face etc. Existem v\u00e1rios grupos partid\u00e1rios do juda\u00edsmo, da \u00e9poca de Jesus,&nbsp;nos quais,&nbsp;vez ou outra ele se enquadra. Eu n\u00e3o acho que Jesus&nbsp;foi algu\u00e9m t\u00e3o&nbsp;pacifico&nbsp;em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es religiosas e institui\u00e7\u00f5es do estado romano na Palestina. Na verdade, ele foi contra as duas institui\u00e7\u00f5es de&nbsp;dom\u00ednio sobre os&nbsp;judeus&nbsp;na \u00e9poca.&nbsp;Na superf\u00edcie, o cristianismo n\u00e3o tem muito a ver com Bolsonaro. Mas temos que considerar que o cristianismo \u00e9 um elemento importante&nbsp;da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. E ele \u00e9 absolutamente violento no seu lado interno, dos mecanismos religiosos, como Xavier&nbsp;Pikaza&nbsp;indica, pois renomeia as outras religi\u00f5es, chamando alguns deles de sat\u00e2nicos, demon\u00edacos. Ent\u00e3o essa pr\u00f3pria agenda monote\u00edsta interna&nbsp;do sistema teol\u00f3gico do&nbsp;cristianismo \u00e9 um problema, pois acumula praticas violentas das demais tradi\u00e7\u00f5es religiosas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estrategicamente, desde 2016, Bolsonaro vem tentando cada vez mais se afirmar como um bom cat\u00f3lico e&nbsp;evang\u00e9lico. E a\u00ed vemos uma s\u00e9rie de convers\u00f5es p\u00fablicas dele, nas quais ele afirma: agora eu aceitei Jesus.&nbsp;Estrategicamente, ele afirma isso&nbsp;nos eventos&nbsp;crist\u00e3os, para poder sensibilizar de uma forma muito direta o p\u00fablico.&nbsp;Ent\u00e3o, a via do di\u00e1logo dele com o cristianismo n\u00e3o \u00e9 de acordo com o seu car\u00e1ter reflexivo enquanto sujeito, que luta contra a homofobia, contra a discrimina\u00e7\u00e3o, mas a via dele de di\u00e1logo com&nbsp;o setor \u00e9 a&nbsp;de tentativas ou indica\u00e7\u00f5es de convers\u00f5es. Foram diversas convers\u00f5es ao catolicismo e, principalmente,&nbsp;mais recentemente, ao&nbsp;p\u00fablico evang\u00e9lico. Nos \u00faltimos tempos, ele tem ido a v\u00e1rias celebra\u00e7\u00f5es religiosas na Assembleia de Deus, na Igreja Universal,&nbsp;na Igreja Mundial do Poder de Deus. Ele vem frequentando essas igrejas de forma muito direta e,&nbsp;com isso, tentando amplificar o seu di\u00e1logo com a base.&nbsp;Portanto,&nbsp;Bolsonaro vem tentando se afirmar como um convertido, e ao mesmo tempo,&nbsp;frequentar uma s\u00e9rie de celebra\u00e7\u00f5es com o setor evang\u00e9lico. Essa \u00e9 a forma&nbsp;com que ele vem tentando dialogar, passando inclusive por cima dessa t\u00f4nica dele mis\u00f3gina, a favor de armas etc. Ali\u00e1s, isso \u00e9 interessante, pois o setor evang\u00e9lico no Brasil \u00e9 contr\u00e1rio ao uso de armas e, mesmo assim, ele vem conseguindo suplantar essa dificuldade.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ASCOM &#8211;&nbsp; O envolvimento de evang\u00e9licos na pol\u00edtica, apoiando candidatos e mesmo adentrando a arena pol\u00edtica, vem se dando j\u00e1 h\u00e1 algum tempo no Brasil. Em que difere o momento atual do que ocorreu nos \u00faltimos governos de esquerda?&nbsp;<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>F\u00c1BIO PY &#8211;<\/strong>&nbsp;A quest\u00e3o dos evang\u00e9licos na pol\u00edtica j\u00e1 vem acontecendo h\u00e1 algum tempo, antes mesmo da constru\u00e7\u00e3o da bancada evang\u00e9lica. Na verdade, isso vem desde 1930, quando o governo varguista incentivou a cria\u00e7\u00e3o de algumas representa\u00e7\u00f5es, organiza\u00e7\u00f5es religiosas. Por exemplo, n\u00f3s temos a Liga&nbsp;Cat\u00f3lica, formada em 1932, e a Confedera\u00e7\u00e3o Evang\u00e9lica Brasileira, formada em 1934. Essas ag\u00eancias v\u00e3o lutar tamb\u00e9m pela representa\u00e7\u00e3o eleitoral desses setores. A Confedera\u00e7\u00e3o Evang\u00e9lica consegue eleger, em 1936, o pastor metodista Guaraci Siqueira, que depois vai ser eleito deputado federal. O interessante \u00e9 que ele tinha uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de esquerda, era um &#8216;socialista crist\u00e3o&#8217;. Tamb\u00e9m se mobiliza o catolicismo. Na&nbsp;ditadura militar, h\u00e1 um apoio indireto das igrejas evang\u00e9licas, como a Assembleia de Deus, a Batista, a Presbiteriana. Elas apoiam em sil\u00eancio a ditadura militar. Em 1986, acontece um novo tipo de entrada do setor evang\u00e9lico no meio pol\u00edtico, por conta de alguns grupos discipulados por evangelistas americanos que v\u00e3o come\u00e7ar a incentivar a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das igrejas. Ent\u00e3o, a configura\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica brasileira se redimensiona a partir de 1986, buscando uma representa\u00e7\u00e3o oficial de evang\u00e9licos no meio da pol\u00edtica partid\u00e1ria. J\u00e1 neste ano, eles conseguem a elei\u00e7\u00e3o de alguns quadros, que v\u00e3o come\u00e7ar a formar o esbo\u00e7o do in\u00edcio&nbsp;da bancada evang\u00e9lica. Isso vai ganhando cada vez mais propor\u00e7\u00e3o&nbsp;e, a partir da d\u00e9cada de 2010,&nbsp;eles conseguem criar a Frente Parlamentar Evang\u00e9lica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;O que acontece \u00e9 que no governo PT o grupo evang\u00e9lico participou&nbsp;da governan\u00e7a petista. Vale \u00e0 pena lembrar que a \u00e1rea de direitos humanos ficou durante um tempo nas m\u00e3os dos setores evang\u00e9licos chamados progressistas.&nbsp;Logo depois Marcos&nbsp;Feliciano&nbsp;assume esse setor, e se&nbsp;distancia do governo PT&nbsp;com intrigas p\u00fablicas, como com&nbsp;Arolde&nbsp;de Oliveira.&nbsp;Mas&nbsp;se amplificou,&nbsp;culminando no&nbsp;impedimento de Dilma Rousseff, que foi amplamente convocado pela Frente Parlamentar Evang\u00e9lica.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o&nbsp;<em>impeachment<\/em> de Dilma Rousseff foi levado na ponta do l\u00e1pis&nbsp;por Marcos Feliciano, Silas&nbsp;Malafaia&nbsp;e diferentes setores&nbsp;evang\u00e9licos hegem\u00f4nicos.&nbsp;Nesse contexto,&nbsp;surge a vontade de constru\u00e7\u00e3o de um governo&nbsp;crist\u00e3o. A\u00ed que entra o Jair Bolsonaro, que se batiza no \u00e2mbito do pr\u00f3prio impedimento de Dilma Rousseff, percebendo o v\u00e1cuo e a necessidade&nbsp;da Frente Parlamentar Evang\u00e9lica de ter um&nbsp;crist\u00e3o como futuro presidente.&nbsp;Nos \u00faltimos anos, o que se diferencia \u00e9 isso: o governo do PT ajudou a Frente Parlamentar Evang\u00e9lica a ganhar for\u00e7a. Mas essa alian\u00e7a se desfez e eles ajudaram no impedimento&nbsp;de Dilma. Em seguida, passaram a&nbsp;compor o quadro do governo Temer&nbsp;e,&nbsp; posteriormente, ajudaram na constru\u00e7\u00e3o do que chamamos hoje de&nbsp;bolsonarismo.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ASCOM &#8211; O PT ent\u00e3o pode ser culpado do surgimento do&nbsp;bolsonarismo&nbsp;por ter contribu\u00eddo para a ascens\u00e3o dos evang\u00e9licos ao poder?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>F\u00c1BIO PY &#8211;&nbsp;<\/strong>Eu diria que sim. V\u00e1rios grupos atuaram&nbsp;na constru\u00e7\u00e3o do&nbsp;bolsonarismo,&nbsp;como o PT,&nbsp;o PSOL. As esquerdas tradicionais, mesmo de forma indireta, ajudaram nisso.&nbsp;Ajudaram no processo de constru\u00e7\u00e3o de um&nbsp;\u201cespantalho da esquerda\u201d, um sujeito odioso, que fala tudo que n\u00e3o \u00e9 correto,&nbsp;justo e&nbsp;que tem posi\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0 democracia. Certamente, um dos respons\u00e1veis por isso \u00e9 o setor de esquerda. Ao longo desse processo, ocorreram algumas quest\u00f5es. Quero salientar&nbsp;que, antes da elei\u00e7\u00e3o de Lula,&nbsp;quando se come\u00e7ava a pensar e mobilizar a campanha eleitoral que&nbsp;daria a vit\u00f3ria a ele, em 2001,&nbsp;um grupo&nbsp;evang\u00e9lico progressista&nbsp;participou de uma reuni\u00e3o e assumiu que vale a pena abrir o di\u00e1logo com institui\u00e7\u00f5es religiosas grandes, como eu costumo chamar, com as grandes corpora\u00e7\u00f5es religiosas evang\u00e9licas. A Universal e todas essas igrejas foram chamadas para o di\u00e1logo e, a partir da\u00ed, o PT passou a se relacionar com essas institui\u00e7\u00f5es representadas na Bancada Evang\u00e9lica.&nbsp;Ent\u00e3o, h\u00e1 um grupo, um n\u00facleo dentro do petismo que defende o di\u00e1logo com grandes evangelistas, pastores como Silas&nbsp;Malafaia, Edir Macedo,&nbsp;etc. Esses evang\u00e9licos&nbsp;progressistas que s\u00e3o os respons\u00e1veis por esse di\u00e1logo. Isso foi at\u00e9 um passo importante,&nbsp;mas depois, ao longo do tempo, foi causando uma s\u00e9rie de rusgas e problemas.&nbsp;Novamente, vale&nbsp;\u00e0 pena lembrar que Marcos Feliciano assumiu, como lideran\u00e7a da Frente Parlamentar Evang\u00e9lica, a comiss\u00e3o de direitos humanos, causando uma s\u00e9rie de tens\u00f5es, falando contra&nbsp;o setor LGBTQIA+, a favor da &#8216;fam\u00edlia tradicional brasileira&#8217;, e isso ajudou a dar mais for\u00e7a ainda para a Frente Parlamentar Evang\u00e9lica. Ao mesmo tempo, foi a partir do crescimento dessa Frente que aconteceu a uni\u00e3o&nbsp;bolsonarista. Ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o direta entre o&nbsp;lulismo&nbsp;e&nbsp;bolsonarismo, mas pode-se dizer que certas institui\u00e7\u00f5es, grupos, tend\u00eancias do setor evang\u00e9lico j\u00e1 participavam do governo petista e depois ajudaram a organizar e constru\u00edram muito fortemente o governo que agora a gente se est\u00e1 vendo, que \u00e9 o&nbsp;bolsonarismo,&nbsp;e que eu chamo de&nbsp;cristofascismo&nbsp;brasileiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ASCOM &#8211; Qual foi o motivo do rompimento dos evang\u00e9licos com o PT?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>F\u00e1bio Py &#8211;&nbsp;<\/strong>Eu diria que o motivo do rompimento dos&nbsp;evang\u00e9licos&nbsp; com&nbsp;o governo Dilma foi essa quest\u00e3o de&nbsp; que come\u00e7ou a ficar muito estridente&nbsp; que o governo n\u00e3o era t\u00e3o favor\u00e1vel \u00e0 dita \u201cfamilia&nbsp;tradicional brasileira\u201d.&nbsp;Come\u00e7ou-se&nbsp;a falar muito em ideologia de g\u00eanero, por exemplo, e essas terminologias come\u00e7aram a cada vez mais&nbsp;afastar o governo de Dilma Rousseff das pautas t\u00e3o importantes para o setor conservador evang\u00e9lico. Mas eu queria tamb\u00e9m adentrar um detalhe: a Igreja Universal do Reino de Deus, mesmo sendo favor\u00e1vel \u00e0 &#8216;familia&nbsp;tradicional brasileira&#8217;,&nbsp;foi uma das \u00faltimas institui\u00e7\u00f5es a romper com Dilma. Isso tamb\u00e9m tem que ser colocado na ponta do l\u00e1pis: a Igreja Universal do&nbsp;Reino de Deus, historicamente, desde Collor,&nbsp;\u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o religiosa extremamente pragm\u00e1tica, preocupada com o poder.&nbsp;Ela est\u00e1 sempre junto de quem ocupa o poder. Nesse momento, por exemplo, j\u00e1&nbsp;est\u00e3o acontecendo v\u00e1rias negocia\u00e7\u00f5es&nbsp;dos agentes da Universal&nbsp;com os principais candidatos que come\u00e7am a disputar a Presid\u00eancia, no caso Lula e Bolsonaro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ASCOM &#8211;&nbsp; Como podemos compreender historicamente o surgimento do \u201cCristofascismo\u201d no Brasil e no mundo? Quais seriam as causas desse fen\u00f4meno de dom\u00ednio das massas atrav\u00e9s da religi\u00e3o? Especificamente no Brasil, o que contribui para isso?&nbsp;<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>F\u00c1BIO PY &#8211;<\/strong>&nbsp;O&nbsp;cristofacismo&nbsp;\u00e9 um termo que eu utilizo a partir de uma te\u00f3loga luterana chamada&nbsp;Dorothee&nbsp;S\u00f6lle. Ela&nbsp;usa o termo pela primeira vez para fazer refer\u00eancia \u00e0 viv\u00eancia dela no nazismo. Doutora&nbsp;em Teologia, foi professora em um semin\u00e1rio de Nova York,&nbsp;onde&nbsp; teve&nbsp;acesso a grupos&nbsp;supremacistas&nbsp;brancos, percebendo o v\u00ednculo desses grupos com o fundamentalismo e a luta deles contra os direitos humanos, as mulheres, os negros etc.&nbsp;Dorothee&nbsp;afirma que h\u00e1 uma conex\u00e3o&nbsp;entre o nazismo e esses setores. E \u00e9 essa conex\u00e3o que ela vai chamar de&nbsp;cristofascismo. Esses sujeitos&nbsp;supremacistas&nbsp;brancos americanos, em nome de Cristo, discriminam e constroem um maquin\u00e1rio de \u00f3dio contra os setores heterodoxos: mulheres, negros, LGBTQIA+ e, no caso&nbsp;dos&nbsp; EUA, os latinos.&nbsp; Ent\u00e3o o&nbsp;cristofascismo&nbsp;surge assim. E a\u00ed eu fa\u00e7o uma diferencia\u00e7\u00e3o com a terminologia da&nbsp;Dorothee. Eu reconhe\u00e7o a import\u00e2ncia do fundamentalismo para a constru\u00e7\u00e3o do governo Bolsonaro, principalmente das grandes corpora\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas e cat\u00f3licas conservadoras. O&nbsp;cristofascismo&nbsp;brasileiro, a que eu estou me referindo, \u00e9 a conex\u00e3o destas grandes corpora\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas e cat\u00f3licas com o governo cerceador de Bolsonaro.&nbsp; Elas ajudaram a constru\u00e7\u00e3o dele, e agora d\u00e3o as m\u00e3os e ajudam a composi\u00e7\u00e3o, a manuten\u00e7\u00e3o dele no poder, construindo uma ind\u00fastria muito pesada&nbsp;de&nbsp;signos crist\u00e3os&nbsp;de \u00f3dio a diferentes pessoas, como os professores, os setores LGBTQIA+, negros ind\u00edgenas e quilombolas. Ent\u00e3o,&nbsp;cristofascismo&nbsp;\u00e9 uma larga composi\u00e7\u00e3o hoje entre as grandes corpora\u00e7\u00f5es religiosas crist\u00e3s e o&nbsp;bolsonarismo. Eles fazem isso a partir de uma linguagem comum: a linguagem do movimento dito fundamentalista. Bolsonaro chega a utilizar desde jarg\u00f5es e at\u00e9 textos b\u00edblicos nas suas falas pol\u00edticas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ASCOM -Temos visto a perda da popularidade do presidente Bolsonaro \u00e0 medida em que aumentam as mortes pela pandemia e que a CPI da Covid-19 avan\u00e7a em suas investiga\u00e7\u00f5es. Podemos vislumbrar o fim do&nbsp;cristofascismo&nbsp;a partir da queda de Bolsonaro ou este movimento tende a continuar com outros atores pol\u00edticos?&nbsp;<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>F\u00c1BIO PY &#8211;<\/strong>&nbsp;Estamos vendo cada vez mais fritar o governo Bolsonaro, mas o que acontece \u00e9 que, embora o presidente esteja perdendo apoio popular, o&nbsp;bolsonarismo&nbsp;vai ser um movimento dif\u00edcil de ser desarticulado<strong>.<\/strong>&nbsp;Como ocorreu nos EUA, onde, mesmo com a derrota de&nbsp;Trump, o&nbsp;trumpismo&nbsp;ainda \u00e9 um elemento forte. Quer dizer, existem parcelas dessa comunidade, da comunidade americana e da comunidade brasileira que atuam junto a pr\u00e1ticas preconceituosas, racistas, e tudo o mais. Ent\u00e3o, acho que temos pela frente um amplo desafio, ainda maior que sua derrota nas elei\u00e7\u00f5es, que \u00e9 desarmar o&nbsp;bolsonarismo, que est\u00e1 absolutamente ligado&nbsp;em suas ra\u00edzes as antigas elites da&nbsp;ditadura civil-empresarial-militar brasileira.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s n\u00e3o desarmamos esta constru\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica do militarismo na sociedade brasileira, n\u00e3o prendemos os militares que se utilizaram do governo para poder cassar, matar, praticar crimes contra a humanidade no Brasil. Bolsonaro&nbsp;foi criado na ditadura militar. Ele era militar \u00e0 \u00e9poca, foi criado por ela e agora segue dissipando, a partir do cristianismo, o seu \u00f3dio em dire\u00e7\u00e3o a diferentes setores sociais e a classes sociais distintas da dele. Ent\u00e3o, o maior desafio \u00e9 desarmar o&nbsp;bolsonarismo, uma vez que n\u00f3s n\u00e3o conseguimos desarmar o legado da ditadura militar na sociedade brasileira e isso, evidentemente, ajudou a construir o que n\u00f3s chamamos hoje&nbsp;de&nbsp;&nbsp;bolsonarismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ASCOM &#8211; Caso o presidente seja considerado culpado, sofra um <em>impeachment <\/em>e eventualmente seja condenado na esfera criminal, que consequ\u00eancias isto poder\u00e1 trazer para as institui\u00e7\u00f5es religiosas que ajudaram a eleg\u00ea-lo e ainda mant\u00eam o seu apoio?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>F\u00c1BIO PY &#8211;&nbsp;<\/strong>Se o&nbsp;bolsonarismo&nbsp;n\u00e3o est\u00e1 desarmado, o&nbsp;cristofascismo&nbsp;n\u00e3o ser\u00e1 desarmado t\u00e3o facilmente. As ag\u00eancias religiosas seguem junto ao&nbsp;bolsonarismo. E seguem dando tons religiosos, ensinando, agindo como&nbsp;&#8216;intelectuais org\u00e2nicos&#8217; (Gramsci)&nbsp;no governo e posteriormente tamb\u00e9m devem seguir. Ent\u00e3o a gente tem um duplo desafio: primeiro vencer Bolsonaro nas elei\u00e7\u00f5es, de forma pragm\u00e1tica. Segundo, \u00e9 tentar, ao longo do tempo, com um trabalho denso de forma\u00e7\u00e3o cr\u00edtica,&nbsp;educativa, de&nbsp;forma\u00e7\u00e3o social, tentar desarmar tanto a ditadura militar quanto o&nbsp;bolsonarismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Caso haja impedimento e criminaliza\u00e7\u00e3o, espera-se que as grandes corpora\u00e7\u00f5es religiosas evang\u00e9licas e cat\u00f3licas sofram medidas judiciais. O que eles v\u00eam fazendo merece ser criminalizado, porque fecham os olhos para as mortes das pessoas e para a ci\u00eancia, em detrimento do ganho financeiro, do ganho pol\u00edtico. Essas institui\u00e7\u00f5es religiosas que abarcam esses pastores que mobilizam o&nbsp;bolsonarismo&nbsp;merecem pelo menos servir de exemplo sendo criminalizadas, pois est\u00e3o cometendo crime contra a humanidade. Meio milh\u00e3o de pessoas n\u00e3o morrem \u00e0 toa, morrem porque n\u00e3o h\u00e1 uma pol\u00edtica ampla do governo e tamb\u00e9m n\u00e3o houve uma conscientiza\u00e7\u00e3o religiosa e pol\u00edtica junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, isso tem que ser deixado bem claro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ASCOM &#8211; Estamos ent\u00e3o vivendo o resultado de um duplo descaso: 1- a n\u00e3o puni\u00e7\u00e3o dos militares envolvidos em crimes durante a ditadura e 2- a \u201cvista grossa\u201d para a prolifera\u00e7\u00e3o de igrejas cujo \u00fanico&nbsp;pop\u00f3sito&nbsp;\u00e9 arrecadar dinheiro e aumentar seu poder?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>F\u00c1BIO PY &#8211;&nbsp;<\/strong>Na verdade,&nbsp;figuras como&nbsp;Bolsonaro&nbsp;s\u00f3 est\u00e3o no poder&nbsp;porque os militares n\u00e3o foram criminalizados. N\u00e3o todos, mas os militares que estavam no poder. Um dos respons\u00e1veis pelo que est\u00e1 acontecendo \u00e9, sim, essa linha de pensamento militar brasileira. E tamb\u00e9m n\u00e3o posso deixar de mencionar as inst\u00e2ncias religiosas que ajudaram de forma direta a eleger o Bolsonaro. N\u00e3o posso deixar de destacar o descaso das inst\u00e2ncias religiosas crist\u00e3s \u00e0s 500 mil mortes de Covid-19, inclusive protestantes tradicionais, que tanto s\u00e3o&nbsp;considerados como intelectualizados e tudo mais. Eles tamb\u00e9m desprezam a ci\u00eancia hegem\u00f4nica que constr\u00f3i tratamentos e vacinas contra a&nbsp;Covid&nbsp;e fizeram uma aposta em v\u00e1rios momentos por rem\u00e9dios ineficazes como a cloroquina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<br \/><strong>ASCOM &#8211; Como as mil\u00edcias se encaixam no&nbsp;cristofascismo&nbsp;brasileiro?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>F\u00c1BIO PY &#8211;&nbsp;<\/strong>J\u00e1 se vem falando que a mil\u00edcia \u00e9 o estado. Posso dizer de uma forma direta que Bolsonaro tem seu p\u00fablico fiel junto \u00e0s mil\u00edcias do estado do Rio de Janeiro. \u00c9 s\u00f3 olhar a pr\u00f3pria moradia dele e quem s\u00e3o as figuras que habitam aquela regi\u00e3o, ou os pr\u00f3prios suspeitos do assassinato de&nbsp;Marielle, vereadora do Rio de Janeiro.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muita discuss\u00e3o sobre a vincula\u00e7\u00e3o de Bolsonaro com as mil\u00edcias do RJ, mas, de forma mais conclusiva, a gente pode dizer que \u00e9 um quadro do militarismo que ajudou a nutrir as mil\u00edcias, mas que est\u00e1 ligado com todas essas pr\u00e1ticas que j\u00e1 s\u00e3o cl\u00e1ssicas desde a ditadura militar brasileira, de&nbsp;rachadinha, esse tipo de coisa, que vem sendo levantado agora, na pr\u00f3pria CPI. Bolsonaro e seus filhos est\u00e3o absolutamente vinculados a essas pr\u00e1ticas&nbsp;como v\u00eam demonstrando as investiga\u00e7\u00f5es.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se a mil\u00edcia se apodera cada vez mais dos espa\u00e7os p\u00fablicos, das geografias e das ag\u00eancias do estado brasileiro, cada vez mais se tem uma pragm\u00e1tica dentro do&nbsp;cristofascismo.&nbsp; Porque se h\u00e1 uma conex\u00e3o entre igrejas evang\u00e9licas e cat\u00f3licas com a linguagem do estado cerceador brasileiro atual, as mil\u00edcias s\u00e3o quem opera a pr\u00e1tica disso, a pr\u00e1tica de viol\u00eancia contra diferentes setores. De forma n\u00e3o oficial, mas \u00e0s vezes oficial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ASCOM &#8211; Voc\u00ea v\u00ea algum risco concreto para a democracia brasileira neste momento ou se o&nbsp;bolsonarismo&nbsp;n\u00e3o for desarmado? Podemos voltar a uma ditadura?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>F\u00e1bio Py &#8211;&nbsp;<\/strong>Primeiro temos que pensar que a ditadura militar n\u00e3o foi descrita como ditadura nos seus cinco, seis primeiros anos. Foi a partir de 1970 que come\u00e7ou a se configurar uma ditadura civil-empresarial-militar. No momento, \u00e9 muito dif\u00edcil se fazer uma an\u00e1lise mais detalhada sobre isso. Agora, alguns elementos t\u00eam que ser considerados. Para o professor Michael&nbsp;Lowy, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mais falar de fascismo tal como era na d\u00e9cada de 1940, 1950. Pra ele,&nbsp;o que se tem a partir de 1960 s\u00e3o novas vers\u00f5es, quando n\u00e3o se faz mais um governo totalit\u00e1rio, dissolvendo parlamento, construindo de forma direta pr\u00e1ticas violentas, de estado ou, no caso do Hitler, imperial mesmo, do imp\u00e9rio do terceiro Reich. Para esse autor, virou uma pragm\u00e1tica dos governos nacionais certos tra\u00e7os fascistas.&nbsp;Eu acho que \u00e9 isso um pouco que a gente passa com o&nbsp;bolsonarismo. N\u00e3o tem aquela antiga configura\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o n\u00e3o temos mais as condi\u00e7\u00f5es de antes de 1960, novas vers\u00f5es. S\u00e3o governos pretensamente democr\u00e1ticos, mas com pr\u00e1ticas de \u00f3dio internas intr\u00ednsecas a esses estados.&nbsp;&nbsp;Bolsonarismo, para Michel&nbsp;Lowy,&nbsp;\u00e9 um caso desse tipo, trata-se de um neofascismo, por isso que&nbsp;utilizo o&nbsp;termo&nbsp;cristofascismo.&nbsp;Pois nunca um governo (autorit\u00e1rio) tra\u00e7ou tanta conex\u00e3o com o&nbsp;cristianismo hegem\u00f4nico&nbsp;no Brasil. Essa \u00e9 uma equa\u00e7\u00e3o sinuosa. Agora,&nbsp;deve-se considerar outro dado: na atual gest\u00e3o se tem&nbsp;aproximadamente 7 mil militares trabalhando no governo. O que eu quero dizer com isso \u00e9 que, mesmo acontecendo a vit\u00f3ria de outro projeto que n\u00e3o seja Bolsonaro em 2022, vai ser muito dif\u00edcil desarmar esse governo crist\u00e3o militar. Desde o processo interno da elei\u00e7\u00e3o ao p\u00f3s-elei\u00e7\u00e3o, tal como&nbsp;aconteceu&nbsp; com&nbsp;Trump. O Bolsonaro j\u00e1 vem avisando, como o&nbsp;Trump&nbsp;fez tamb\u00e9m, que n\u00e3o vai aceitar facilmente uma pretensa derrota nas urnas. Tudo isso tem que ser colocado na ponta do l\u00e1pis.&nbsp; N\u00e3o \u00e9 apenas derrotar&nbsp;nas elei\u00e7\u00f5es,&nbsp;tem que tentar depois desarticular essa mobiliza\u00e7\u00e3o antiga pr\u00f3-militar, que existe desde 1964 no Brasil, destruir esse imagin\u00e1rio&nbsp;que existe do militar como sendo uma possibilidade de constru\u00e7\u00e3o governamental no Brasil, com a possibilidade de golpes militares. Ent\u00e3o eu diria que temos muito trabalho pela frente. Primeiro, tentar de alguma forma derrotar o projeto Bolsonaro em 2022.&nbsp; Eu preferia que fosse <em>impeachment,<\/em> mas&#8230; nem mesmo&nbsp;a c\u00fapula do&nbsp;PT deseja o impeachment,&nbsp;preferem uma&nbsp;disputa&nbsp;eleitoral pois \u00e9 mais r\u00e1pida e&nbsp;menos desgastante. E&nbsp;tamb\u00e9m pelo risco de ocorrer uma outra virada de mesa caso o <em>impeachment<\/em> aconte\u00e7a e o vice Mour\u00e3o venha a ganhar novas cores. Ent\u00e3o tudo isso&nbsp;tem de ser pensado diretamente.&nbsp;Ap\u00f3s a sa\u00edda de Bolsonaro, seja por <em>impeachment <\/em>ou elei\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso depois seguir no processo de constru\u00e7\u00e3o de di\u00e1logos e de educa\u00e7\u00e3o, de repensar essa brasilidade. Repensar e negar, lutar contra, de forma direta, a composi\u00e7\u00e3o que indica que os militares possam de alguma forma serem os salvadores da p\u00e1tria no Brasil. Existe uma ala dentro do militarismo, um grupo, que admite condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para isso. Desde o tenentismo da d\u00e9cada de 1922, acham que t\u00eam que lutar politicamente pela constru\u00e7\u00e3o de um Brasil, embora o tenentismo tivesse outra ideia, mas isso \u00e9 um pensamento muito comum, no&nbsp;s\u00e9culo 20, entre os militares brasileiros. Eu n\u00e3o acho que h\u00e1 um risco de uma nova ditadura civil militar, acho que existe risco \u00e9 de o governo Bolsonaro seguir&nbsp;e aprofundar seu del\u00edrio que diz ser democr\u00e1tico.&nbsp;Isso \u00e9 um risco muito claro: ele continuar e&nbsp;seguir a t\u00f4nica do&nbsp;desprezo pela vida das pessoas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Indica\u00e7\u00e3o de Leituras:<\/strong>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>LOWY, M.&nbsp;<em>O neofascista Bolsonaro diante da pandemia<\/em>. Blog da&nbsp;Boitempo, 2020. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2020\/04\/28\/michael-lowy-o-neofascista-bolsonaro-diante-da-pandemia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2020\/04\/28\/michael-lowy-o-neofascista-bolsonaro-diante-da-pandemia\/<\/a><strong><\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>PY, F\u00e1bio.&nbsp;<em>Pandemia&nbsp;cristofascista<\/em>. S\u00e3o Paulo: Recriar, 2020a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>PY, F\u00e1bio.&nbsp;Bolsonaro\u2019s&nbsp;Brazilian&nbsp;Christofascism&nbsp;during&nbsp;the&nbsp;Easter&nbsp;period&nbsp;plagued&nbsp;by&nbsp;Covid-19.<strong>&nbsp;<\/strong><em>International&nbsp;Journal&nbsp;of&nbsp;Latin&nbsp;American&nbsp;Religions<\/em>, v. 4, p.318-334, 2020b.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>SCHMITT, C.&nbsp;<em>Th\u00e9ologie&nbsp;politique<\/em>. Paris: Gallimard, 1988.\u202f&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>SOLLE,&nbsp;Dorothee.&nbsp;<a href=\"https:\/\/books.google.com\/books?id=zbeCGwAACAAJ&amp;dq\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Beyond&nbsp;Mere&nbsp;Obedience:&nbsp;Reflections&nbsp;on&nbsp;a Christian&nbsp;Ethic&nbsp;for&nbsp;the&nbsp;Future<\/em><\/a>, Minneapolis: Augsburg&nbsp;Publishing&nbsp;House, 1970.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professor da UENF, te\u00f3logo F\u00e1bio Py afirma que rela\u00e7\u00f5es com igrejas crist\u00e3s \u00e9 o que elegeu e sustenta o autoritarismo do presidente Bolsonaro Em 1970, a te\u00f3loga alem\u00e3&nbsp;Dorothee&nbsp;S\u00f6lle&nbsp;criou o termo \u201ccristofascismo\u201d para se referir \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre o partido nazi e as igrejas crist\u00e3s no desenvolvimento do Terceiro Reich. 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