{"id":6704,"date":"2020-10-08T12:57:39","date_gmt":"2020-10-08T15:57:39","guid":{"rendered":"https:\/\/uenf.br\/portal\/?p=6704"},"modified":"2020-10-08T12:57:39","modified_gmt":"2020-10-08T15:57:39","slug":"podemos-ter-outro-ebola-escondido-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal1.uenf.br\/portal\/noticias\/podemos-ter-outro-ebola-escondido-na-amazonia\/","title":{"rendered":"\u2018Podemos ter outro ebola escondido na Amaz\u00f4nia\u2019"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Professor Marcos Pedlowski, um dos autores de artigo na <em>Science<\/em>\u00a0 sobre a Amaz\u00f4nia, fala sobre as consequ\u00eancias da degrada\u00e7\u00e3o da floresta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O desmatamento e a degrada\u00e7\u00e3o das florestas tropicais podem estar por tr\u00e1s do surgimento de v\u00edrus potencialmente capazes de gerar pandemias, como \u00e9 o caso da Covid-19. \u00c9 o que acredita o professor Marcos Pedlowski (UENF), um dos autores do primeiro estudo a conseguir mensurar a degrada\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia Brasileira. O estudo, que envolve pesquisadores americanos e brasileiros, foi publicado no m\u00eas passado, <em>na Science<\/em> (<a href=\"https:\/\/science.sciencemag.org\/content\/369\/6509\/1378\/tab-pdf\">https:\/\/science.sciencemag.org\/content\/369\/6509\/1378\/tab-pdf<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPodemos\nter outro ebola escondido na Amaz\u00f4nia\u201d, diz o pesquisador nesta entrevista\nconcedida \u00e0 ASCOM\/UENF, defendendo a tese de que o ebola surgiu do desmatamento\ndas florestas da \u00c1frica Central. <\/p>\n\n\n\n<p>No artigo, os pesquisadores afirmam que a degrada\u00e7\u00e3o ambiental na Amaz\u00f4nia brasileira supera o desmatamento. De 1992 a 2014, a \u00e1rea desmatada teria sido de 308 mil quil\u00f4metros quadrados e&nbsp; a \u00e1rea degradada, de 337 mil quil\u00f4metros quadrados. O estudo se baseou em tecnologias aplicadas \u00e0s imagens de sat\u00e9lites. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uenf.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/4-slide-4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6712\" width=\"514\" height=\"336\"\/><figcaption> A extra\u00e7\u00e3o seletiva, que remove \u00e1rvores espec\u00edficas para obten\u00e7\u00e3o de madeira sem derrubar toda a floresta, \u00e9 uma forma de degrada\u00e7\u00e3o florestal detectada.&nbsp;Imagem de David Skole. <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Segundo\nPedlowski, o desmatamento \u00e9 muito mais abordado do que a degrada\u00e7\u00e3o porque \u00e9\nmais f\u00e1cil de ser medido. Enquanto o desmatamento \u00e9 a retirada de \u00e1reas\ncont\u00ednuas para um uso inteiramente novo, como pastagem, a degrada\u00e7\u00e3o ocorre por\natividades como queimadas e extra\u00e7\u00e3o seletiva de madeira. Sob o dossel\nflorestal (estrato superior das florestas), muitas vezes a floresta n\u00e3o est\u00e1\nintacta, mas as imagens de sat\u00e9lite podem n\u00e3o captar o problema.<\/p>\n\n\n\n<p>O\nartigo mostra que, durante o per\u00edodo de 1992 a 2014, as pol\u00edticas brasileiras\ncontribu\u00edram para a redu\u00e7\u00e3o do desmatamento. Mas, de 2006 a 2010, a taxa m\u00e9dia\nanual de degrada\u00e7\u00e3o florestal por extra\u00e7\u00e3o e queima era quase igual \u00e0s taxas de\ndesmatamento, e em 2014 as taxas de degrada\u00e7\u00e3o haviam excedido as taxas de\ndesmatamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta entrevista, Pedlowski d\u00e1 mais detalhes sobre a pesquisa, abordando ainda a pol\u00edtica nacional para o meio ambiente e as consequ\u00eancias que a degrada\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia pode trazer para a popula\u00e7\u00e3o de todo o planeta. Dentre elas, altera\u00e7\u00f5es no clima global e a gera\u00e7\u00e3o de pandemias.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uenf.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/delta-amazonia.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6714\"\/><figcaption> Imagem da europeanspaceagency em Visualhunt \/ CC BY-SA <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>ASCOM\/UENF\n&#8211; Ouvimos muitos discursos contra o desmatamento da Amaz\u00f4nia, mas as pesquisas\nest\u00e3o apontando um problema maior ainda, que \u00e9 a sua degrada\u00e7\u00e3o. A degrada\u00e7\u00e3o e\no desmatamento s\u00e3o coexistentes?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pedlowski\n&#8211;<\/strong>&nbsp; Tanto o desmatamento quanto a degrada\u00e7\u00e3o s\u00e3o\naltera\u00e7\u00f5es da integridade ecol\u00f3gica dos biomas. No entanto, a degrada\u00e7\u00e3o \u00e9 uma\naltera\u00e7\u00e3o mais dif\u00edcil de ser visualizada pelas t\u00e9cnicas tradicionais, baseadas\nna an\u00e1lise de imagens de sat\u00e9lites. A comunidade cient\u00edfica j\u00e1 discutia outras\nformas de altera\u00e7\u00e3o. Nossa equipe vem trabalhando com a quest\u00e3o da degrada\u00e7\u00e3o h\u00e1\npelo menos 22 anos, desde que cheguei na UENF. Ent\u00e3o, a degrada\u00e7\u00e3o pode ser t\u00e3o\nimportante quanto&nbsp; o desmatamento, s\u00f3 que\nela \u00e9 mais complicada para medir. Neste trabalho, n\u00f3s detectamos e medimos\ndiferentes formas de degrada\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil nem a detec\u00e7\u00e3o de imagens nem\na identifica\u00e7\u00e3o do&nbsp; impacto da\ndegrada\u00e7\u00e3o. Existem dois elementos principais para a degrada\u00e7\u00e3o florestal: a\nretirada de madeira e a penetra\u00e7\u00e3o de fogo. Existe tamb\u00e9m o chamado efeito de\nborda. Toda vez que uma \u00e1rea \u00e9 desmatada, isso prejudica o contato floresta a\nfloresta. Ali \u00e9 o que chamamos de borda. Existe uma sinergia; o desmatamento e\na degrada\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o processos que correm necessariamente juntos, mas em alguns\naspectos ocorre uma sinergia, principalmente naquela degrada\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima da \u00e1rea\ndesmatada. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>ASCOM\/UENF\n&#8211; A quest\u00e3o ambiental vai al\u00e9m da prote\u00e7\u00e3o \u00e0 fauna e \u00e0 flora, afetando tamb\u00e9m o\nser humano. Fale um pouco sobre as consequ\u00eancias da degrada\u00e7\u00e3o ambiental das\nflorestas para a vida humana.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pedlowski<\/strong> \u2013 A degrada\u00e7\u00e3o produz altera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas que podem ser percebidas ou entendidas como menos importantes que o desmatamento. Desmatamento \u00e9 a&nbsp; altera\u00e7\u00e3o do bioma numa determinada \u00e1rea acima da taxa de 90% do que \u00e9 arbitrado pela FAO. Tudo que vai acima disso \u00e9 desmatamento e tudo que vem abaixo \u00e9 degrada\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o voc\u00ea pode ter diferentes n\u00edveis de degrada\u00e7\u00e3o. Mesmo uma \u00e1rea fracamente desmatada pode ter&nbsp; altera\u00e7\u00f5es importantes na fauna, flora, no estoque de \u00e1gua etc. E o mais importante \u00e9 que a degrada\u00e7\u00e3o pode produzir a libera\u00e7\u00e3o de v\u00edrus e bact\u00e9rias que est\u00e3o estocados nos sistemas florestais. \u00c9 por isso que alguns sanitaristas preveem que uma pr\u00f3xima grande pandemia por algum v\u00edrus at\u00e9 agora desconhecido ocorrer\u00e1 justamente na Amaz\u00f4nia brasileira. Ent\u00e3o a degrada\u00e7\u00e3o tem altera\u00e7\u00f5es importantes do ponto de vista da fauna, da flora, dos servi\u00e7os ambientais e tem tamb\u00e9m esse aspecto mais dram\u00e1tico que \u00e9 a libera\u00e7\u00e3o de vetores que podem causar doen\u00e7as sanit\u00e1rias. Hoje temos arboviroses cujos v\u00edrus, at\u00e9 h\u00e1 algum tempo atr\u00e1s, antes de termos essas grandes \u00e1reas desmatadas, estavam exatamente presos dentro da vegeta\u00e7\u00e3o. Temos grandes surtos de febre amarela, mal\u00e1ria e leishmaniose por conta disso. Pois, em condi\u00e7\u00f5es normais, esses vetores estariam ali estocados, num equil\u00edbrio entre presa e predador.&nbsp; Ao se desmatar, esses v\u00edrus s\u00e3o liberados mais rapidamente, mas tamb\u00e9m ao se degradar aumenta-se a chance de libera\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as que viviam ali paradas, estocadas desde muito tempo. A degrada\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o despertar tanta aten\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 hoje os governos se valeram do fato de que a degrada\u00e7\u00e3o \u00e9 mais dif\u00edcil de ser medida. Esse artigo que publicamos na <em>Science<\/em> \u00e9 a primeira estimativa da degrada\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia brasileira. Acredito que outros grupos em breve tamb\u00e9m v\u00e3o apresentar dados sobre degrada\u00e7\u00e3o de biomas. \u00c9 importante observar que os valores que apresentamos,&nbsp; de 330 mil quil\u00f4metros quadrados de degrada\u00e7\u00e3o, est\u00e3o subestimados, ou seja, a medida foi extremamente conservadora. Os governos brasileiros v\u00eam falando de 80 % da Amaz\u00f4nia preservada. Com esse trabalho, n\u00f3s informamos que o m\u00e1ximo que temos de conserva\u00e7\u00e3o integral&nbsp; na Amaz\u00f4nia hoje \u00e9 70%. Uma diferen\u00e7a significativa, que aponta para o fato de que temos o potencial pra alcan\u00e7ar uma coisa que alguns te\u00f3ricos falam&nbsp; que \u00e9 um ponto de n\u00e3o retorno&nbsp; da sustenta\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica da Amaz\u00f4nia, que poderia abrir espa\u00e7o para a transforma\u00e7\u00e3o da floresta numa grande savana, num grande cerrado. Esse sim seria um grande problema, e muito dram\u00e1tico, porque afetaria o clima global como um todo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uenf.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/2-slide-6.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6716\" width=\"523\" height=\"389\"\/><figcaption> Os pesquisadores usaram imagens de sat\u00e9lite para mapear \u00e1reas de floresta intacta, terras desmatadas e florestas degradadas em toda a Amaz\u00f4nia brasileira.&nbsp;Imagem de Jay Samek. <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>ASCOM\/UENF\n\u2013 Ent\u00e3o, podemos dizer que a forma como a sociedade vem interferindo no meio\nambiente potencializa o risco de doen\u00e7as?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pedlowski<\/strong> \u2013 Com certeza. Temos um grande exemplo de dist\u00farbio que resultou na libera\u00e7\u00e3o de um v\u00edrus mortal, que &nbsp;\u00e9 o ebola na regi\u00e3o central da \u00c1frica. Isso tem a ver com desmatamentos tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, quando n\u00f3s falamos que h\u00e1 uma possibilidade de que haja a libera\u00e7\u00e3o de algum v\u00edrus mortal a partir dessas \u00e1reas de degrada\u00e7\u00e3o intensa, \u00e1reas que at\u00e9 hoje estavam fora do alcance da altera\u00e7\u00e3o causada pela penetra\u00e7\u00e3o da franja capitalista, \u00e9 que pode ter tamb\u00e9m algum ebola estocado na Floresta Amaz\u00f4nica. Se tem l\u00e1 na regi\u00e3o central da \u00c1frica, por que n\u00e3o teria aqui?&nbsp; Essa \u00e9 uma primeira quest\u00e3o. A outra quest\u00e3o, que precisa ficar clara, \u00e9 que a altera\u00e7\u00e3o florestal tem outro aspecto. Ela serve para alimentar grandes fazendas, principalmente na China, para quem o Brasil vende grande parte de sua soja. N\u00e3o \u00e9 para alimenta\u00e7\u00e3o humana, mas para a alimenta\u00e7\u00e3o de animais,&nbsp; como porcos, vacas etc. Muito se fala, por exemplo, que a pandemia da Covid 19 come\u00e7ou no mercado de Wuhan por causa do consumo de morcegos, mas essa n\u00e3o \u00e9 a grande possibilidade para o surgimento desse v\u00edrus. Se ele efetivamente surgiu em Wuhan,&nbsp; foi porque naquela regi\u00e3o existem grandes fazendas de&nbsp; animais. S\u00f3 em uma delas h\u00e1 cerca de 200 mil cabe\u00e7as de vaca. E essas grandes fazendas corporativas, das quais n\u00e3o se fala muito, foram constru\u00eddas em \u00e1reas que tinham florestas que eram habitadas por diferentes esp\u00e9cies de morcegos. Ent\u00e3o, ao se desmatar essas \u00e1reas e fazer essas grandes fazendas, trouxeram os morcegos para a conviv\u00eancia dentro dos est\u00e1bulos e armaz\u00e9ns com esse grande n\u00famero de animais. E a\u00ed a mistura da intera\u00e7\u00e3o de fezes de morcegos com fezes de porcos, bovinos, \u00e9 onde est\u00e1 um caldo de cultura perfeito para o surgimento de grandes pandemias. A Covid-19 \u00e9 apenas uma das grandes pandemias que est\u00e3o sendo geradas nas grandes fazendas corporativas. A gera\u00e7\u00e3o de pandemias est\u00e1 nas duas pontas: quando se altera os biomas florestais, principalmente nas florestas tropicais, e nessas grandes fazendas de animais para consumo utilizando as \u00e1reas desmatadas. Ent\u00e3o quando a pessoa fala: meu modo de vida est\u00e1 levando ao surgimento das pandemias? Com certeza sim, e, eu lamento dizer, a Covid-19 n\u00e3o vai ser a primeira e n\u00e3o ser\u00e1 a ultima pandemia com a qual n\u00f3s vamos ter que conviver devido a esse modo de vida que, por um lado, desmata, e por outro, acumula uma quantidade impressionante de animais para servirem depois para uma dieta que, inclusive, n\u00e3o \u00e9 pra matar a fome de ningu\u00e9m, mas para dar vaz\u00e3o a um modo de consumo. Uma dieta baseada em superprote\u00ednas n\u00e3o tem nada a ver com fome. Tem a ver com o modo de vida que \u00e9 gerado pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es que operam no setor de alimentos. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uenf.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Marcos-Pedlowski2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6718\"\/><figcaption>Marcos Pedlowski, professor da UENF, \u00e9 um dos autores do artigo publicado na <em>Science<\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>ASCOM\/UENF\n&#8211;<\/strong>\n<strong>Voc\u00ea considera que a narrativa que foi\nconstru\u00edda contra o desmatamento, que \u00e9 um problema que j\u00e1 se conhece h\u00e1 muito\ntempo, acabou de certa forma encobrindo o problema, que pode ser at\u00e9 maior, que\n\u00e9 a degrada\u00e7\u00e3o ambiental?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pedlowski<\/strong> &#8211; &nbsp;A ci\u00eancia nem sempre caminha na velocidade do problema que ela tenta estudar. Os melhores sat\u00e9lites para obten\u00e7\u00e3o de imagens da Terra foram lan\u00e7ados na d\u00e9cada de 1970, a s\u00e9rie Landsat. Ou seja, n\u00e3o tem 50 anos. De l\u00e1 para c\u00e1, foram criadas tecnologias como o geoprocessamento, que rastreia tudo rapidamente, mas o problema tem evolu\u00eddo mais r\u00e1pido que a ci\u00eancia.&nbsp; A ci\u00eancia est\u00e1 sempre naquela situa\u00e7\u00e3o de estar correndo atr\u00e1s do problema. Ent\u00e3o eu diria que agora j\u00e1 se tem ferramental t\u00e9cnico, formas de se detectar a degrada\u00e7\u00e3o. Como eu j\u00e1 disse,&nbsp; esse artigo \u00e9 um corol\u00e1rio do trabalho de duas d\u00e9cadas. E n\u00f3s n\u00e3o paramos; nesse exato momento&nbsp; h\u00e1 mais medidas sendo feitas, do per\u00edodo de 2015 a 2018,&nbsp; e provavelmente a gente vai encontrar mais problemas. A degrada\u00e7\u00e3o diminuiu porque o desmatamento aumentou? N\u00e3o necessariamente. Nas primeiras an\u00e1lises que temos para o per\u00edodo 2014-2018, a melhor estimativa \u00e9 que n\u00e3o aumentou, mas&nbsp; se manteve estacionada. S\u00f3 que o desmatamento aumentou. Ent\u00e3o n\u00f3s temos que a degrada\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema persistente, s\u00f3 que tamb\u00e9m ela est\u00e1 se afastando do que a gente considera historicamente de \u00e1rea tradicional de preocupa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a pr\u00f3xima do desmatamento. Est\u00e3o sendo abertos caminhos, n\u00e3o que isso ocorra simultaneamente, mas est\u00e1 sendo feita uma opera\u00e7\u00e3o de remo\u00e7\u00e3o de madeira e que vai facilitar depois que algu\u00e9m chegue l\u00e1&nbsp; provavelmente e queime. N\u00f3s detectamos dois tipos de degrada\u00e7\u00e3o: uma que a gente chama de dependente do desmatamento&nbsp; e a outra independente do desmatamento. N\u00e3o apenas a degrada\u00e7\u00e3o est\u00e1 acontecendo em fun\u00e7\u00e3o do desmatamento, mas est\u00e1 acontecendo independentemente dele. Como eu disse, tem sido mais f\u00e1cil medir o desmatamento, por isso se prestou mais aten\u00e7\u00e3o nele e n\u00e3o na&nbsp; degrada\u00e7\u00e3o. Pode ser que num certo momento n\u00f3s passemos a ter a velocidade para mensurar a degrada\u00e7\u00e3o, que \u00e9 t\u00e3o r\u00e1pida quanto o desmatamento. A gente demonstrou que nem tudo que \u00e9 dito que \u00e9 floresta, porque n\u00e3o \u00e9 desmatamento, \u00e9 floresta ainda, ou \u00e9 uma floresta intacta. Ent\u00e3o muitas vezes o sat\u00e9lite passa, voc\u00ea tem a impress\u00e3o que ali est\u00e1 intacto, depois aplica uns programas de detec\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica da degrada\u00e7\u00e3o, vai l\u00e1 e encontra uma \u00e1rea altamente degradada. Ent\u00e3o tem sido interessante para os governos manter a narrativa apenas do desmatamento. O fato de este artigo ter sa\u00eddo na <em>Science<\/em> \u00e9 importante, pois, al\u00e9m de ser a principal revista de ci\u00eancia do mundo, sabemos que todos os artigos passam por um crivo extremamente apertado, como passamos. Dos artigos da <em>Science<\/em>,&nbsp; 95% s\u00e3o rejeitados&nbsp; na apresenta\u00e7\u00e3o. &nbsp;Tivemos que fazer tr\u00eas rodadas de avalia\u00e7\u00e3o, porque a revista viu que tinha um potencial novo para a ci\u00eancia, pois a <em>Science<\/em> tem essa pretens\u00e3o, mas t\u00ednhamos que demonstrar&nbsp; que os n\u00fameros que est\u00e1vamos apresentando para a degrada\u00e7\u00e3o se sustentavam. E n\u00f3s demonstramos com todas as discuss\u00f5es, foram tr\u00eas cartas com seis p\u00e1ginas. As cartas de respostas para as d\u00favidas eram maiores que o texto do artigo. Ent\u00e3o estou bastante confiante que n\u00f3s apresentamos a melhor estimativa conservadora para a degrada\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia brasileira. E eu n\u00e3o tenho medo de dizer: no m\u00ednimo a altera\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia hoje \u00e9 de 30%. Isso era at\u00e9 2014. Como de 2014 para c\u00e1 j\u00e1 se alterou um tanto, eu n\u00e3o ficarei surpreso se quando medirmos venhamos a ter em torno de 60% do que podemos chamar de intacto. E isso, por si s\u00f3, j\u00e1 ser\u00e1 desastroso para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. &nbsp;A degrada\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um problema menor que os demais problemas que estamos vivenciando na Amaz\u00f4nia, muito pelo contr\u00e1rio, ela \u00e9 t\u00e3o ou mais importante que o desmatamento, essa \u00e9 a verdade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ASCOM\/UENF\n&#8211; Voc\u00ea estuda a Amaz\u00f4nia desde 1991. Como voc\u00ea avalia todo o ataque desferido\npelo governo ao INPE, com o objetivo de desqualificar seus trabalhos? <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pedlowski <\/strong>\u2013 Todo o ataque que est\u00e1 sendo feito contra o INPE, na tentativa de negar a qualidade da ci\u00eancia que os seus pesquisadores produzem, \u00e9 um tiro no p\u00e9. Isto porque pessoas como eu e outros cientistas que t\u00eam as mesmas bases de dado do INPE, que s\u00e3o as imagens do Landsat e outros sat\u00e9lites, apesar de estarmos em universidades p\u00fablicas e esse ataque tamb\u00e9m estar sendo lan\u00e7ado \u00e0s universidades, n\u00f3s e parceiros americanos temos as imagens de Landsat de gra\u00e7a. O Planet o governo da Noruega acaba de disponibilizar universalmente aos pesquisadores que fazem estudo sobre altera\u00e7\u00f5es nas florestas tropicais. Isso quer dizer que, ao enfraquecer o INPE, o governo est\u00e1 deixando de ter um grupo de pesquisadores que tem um compromisso com o estado nacional fort\u00edssimo. A estrutura do INPE foi alterada para quebrar toda a sua autonomia, o que \u00e9 p\u00e9ssimo para qualquer institui\u00e7\u00e3o cientifica. Sua estrutura foi militarizada, o or\u00e7amento foi zerado, e a esperan\u00e7a \u00e9 que o INPE pare de fazer ci\u00eancia. S\u00f3 que a ci\u00eancia que o INPE ajudou a gerar&nbsp; n\u00e3o pode ser parada. Essa capacidade tecnol\u00f3gica e os modelos que ele gerou foram adotados inclusive pela NASA. Vamos ter que fazer um trabalho redobrado pra que o INPE retome o que est\u00e1 sendo corro\u00eddo agora por esses ataques, mas \u00e9 uma besteira porque a expertise j\u00e1 est\u00e1 disseminada. Voc\u00ea pode sabotar o INPE, mas n\u00e3o pode mais parar &nbsp;o processo de compreens\u00e3o cientifica que o INPE ajudou a construir. Continuar\u00e3o existindo pesquisadores que bebem da fonte que ele ajudou a criar. N\u00f3s continuaremos a trabalhar na degrada\u00e7\u00e3o. Esse artigo da <em>Science<\/em> n\u00e3o \u00e9 o canto do cisne, \u00e9 apenas uma etapa de uma produ\u00e7\u00e3o de conhecimento que continua.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uenf.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/3-slide-7.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6720\" width=\"556\" height=\"275\"\/><figcaption> Ao analisar as propriedades espectrais de cada imagem de sat\u00e9lite, a equipe conseguiu calcular a porcentagem de vegeta\u00e7\u00e3o verde em cada pixel, revelando uma degrada\u00e7\u00e3o florestal que geralmente \u00e9 extremamente dif\u00edcil de detectar.&nbsp;Imagem de Jay Samek. <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>ASCOM\/UENF\n&#8211;<\/strong>\n<strong>Sabendo que 30% da Amaz\u00f4nia est\u00e1\ndegradada, ainda h\u00e1 tempo para que os \u00f3rg\u00e3os de controle deem aten\u00e7\u00e3o a isso?\nQuais as alternativas para isso seja solucionado<\/strong>?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pedlowski \u2013<\/strong> Essa postura atual do governo Bolsonaro, que tirou todas as formas de controle ambiental, ainda vai criar muitos problemas para o Brasil. Vejo, por exemplo, a suspens\u00e3o dos acordos do Mercosul com a Uni\u00e3o Europeia, mas poder\u00e1 haver uma serie de puni\u00e7\u00f5es em virtude desse desmonte ambiental que vem sendo realizado. Ent\u00e3o primeira quest\u00e3o: queira o governo Bolsonaro ou n\u00e3o, no governo Bolsonaro ou depois dele,&nbsp; o Brasil vai ter que voltar para o grupo de pa\u00edses que t\u00eam compromisso com o controle das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. J\u00e1 est\u00e1 demonstrado por uma s\u00e9rie de estudos que manter a floresta intacta \u00e9 economicamente mais vantajoso para o Brasil. Recentemente, tivemos uma tentativa de desmanche de uma s\u00e9rie de prote\u00e7\u00f5es para as restingas,&nbsp; pelo Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, pra acabar com licenciamentos. Essa \u00e9 mais uma tentativa de retornar \u00e0 d\u00e9cada de 70 do s\u00e9culo 20, o que \u00e9 outro equivoco. O Brasil ser\u00e1 for\u00e7ado, cedo ou tarde, talvez mais cedo do que tarde, por \u00f3rg\u00e3os multilaterais, a abandonar essa pol\u00edtica de ataque ao meio ambiente, n\u00e3o porque sejam bonzinhos, mas porque o grau de danos que est\u00e3o sendo cometidos&nbsp; nos sistemas ambientais brasileiros compromete tamb\u00e9m os demais pa\u00edses. Existe um interesse multilateral envolvido. Ent\u00e3o primeiro o Brasil vai ter que chegar junto das pol\u00edticas ambientais da maioria das democracias, coisa que n\u00e3o estamos fazendo nesse momento. A segunda coisa \u00e9 que teremos que voltar a valorizar uma forma de uso da biodiversidade da Amaz\u00f4nia que n\u00e3o seja essa situa\u00e7\u00e3o perdedora de transformar tudo&nbsp; para virar pasto, que \u00e9 o que esta acontecendo: 70% da floresta derrubada na Amaz\u00f4nia e Pantanal \u00e9 para pasto. Hoje saiu um estudo mostrando que o gado brasileiro \u00e9 o que menos gera dinheiro para o pa\u00eds. Infelizmente somos tomados por uma l\u00f3gica do s\u00e9culo 16. Temos que voltar para o s\u00e9culo 21 e adotar uma serie de pol\u00edticas que favore\u00e7am formas de preserva\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e de melhor aproveitamento da biodiversidade. Isso em todos os biomas, porque quando voc\u00ea retira a prote\u00e7\u00e3o de manguezais pra facilitar a constru\u00e7\u00e3o de resorts, isso n\u00e3o \u00e9 econ\u00f4mico, n\u00e3o gera nada. Quem fizer um resort na costa brasileira paradis\u00edaca nesse momento&nbsp; sabe que esse resort pode vir a durar 10, 20 anos. Daqui a 10, 20 anos pode ocorrer eros\u00e3o costeira, invas\u00e3o do mar, ou seja, \u00e9 tudo ganho de curt\u00edssimo prazo. Temos que voltar a ter pol\u00edticas que pensem a m\u00e9dio e longo prazo. Nesse momento toda essa destrui\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sendo causada na Amaz\u00f4nia \u00e9 ganho de curt\u00edssimo prazo, n\u00e3o tem projeto de desenvolvimento associado a isso, apenas gera\u00e7\u00e3o de divisas, e uma gera\u00e7\u00e3o de divisas deficit\u00e1ria. Se a gente colocar na ponta do l\u00e1pis o quanto a gente est\u00e1 ganhando e quanto est\u00e1 perdendo&#8230; Por exemplo, com a transforma\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia&nbsp; em pasto, estamos perdendo. O agroneg\u00f3cio \u00e9 a ancora da balan\u00e7a comercial brasileira, mas \u00e9 uma ancora muito prec\u00e1ria, porque vai chegar uma hora em que ningu\u00e9m mais vai querer comprar esses produtos. Teremos toda uma Amaz\u00f4nia desmatada e degradada e ningu\u00e9m querendo comprar essas <em>comodities<\/em> nossas. Vai ser um paradoxo muito grande e uma crise econ\u00f4mica ainda maior aqui dentro.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/uenf.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/5-slide-5-768x512-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6721\" width=\"560\" height=\"373\"\/><figcaption> Os inc\u00eandios no sub-bosque s\u00e3o uma forma de degrada\u00e7\u00e3o florestal indireta, que tende a ocorrer independentemente do desmatamento.&nbsp;Esses inc\u00eandios podem ser provocados acidentalmente ou por queimadas rotineiras de pastagens, embora tamb\u00e9m possam ser causados \u200b\u200bpor grilagem de terras.&nbsp;Os inc\u00eandios florestais no Brasil t\u00eam aumentado em frequ\u00eancia e severidade nos \u00faltimos anos, associados a condi\u00e7\u00f5es mais quentes e secas devido \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.&nbsp;Imagem de David Skole. <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>ASCOM\/UENF &#8211; Diante da forma como o governo federal vem lidando com a quest\u00e3o da Amaz\u00f4nia, podemos afirmar que a degrada\u00e7\u00e3o \u00e9 um grande desafio n\u00e3o s\u00f3 ambiental como social?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pedlowski<\/strong> \u2013 Primeiro temos que voltar \u00e0 quest\u00e3o do que o presidente disse: que a Amaz\u00f4nia \u00e9 uma floresta \u00famida e por isso n\u00e3o queima. \u00c9 importante dizer que na Amaz\u00f4nia existem diversas forma\u00e7\u00f5es, umas mais aptas a pegarem fogo do que outras.&nbsp; Mas, mesmo as florestas mais densas s\u00e3o, sim, capazes de pegar fogo por causa da ocorr\u00eancia de degrada\u00e7\u00e3o. Ainda que ocorra o fogo acidental, ou natural, a grande press\u00e3o \u00e9 dos fogos criminosos, que s\u00e3o iniciados em grandes fazendas. Ent\u00e3o n\u00e3o existe essa ideia de a Amaz\u00f4nia n\u00e3o pegar fogo; ela pega fogo sim. Temos a narrativa de que h\u00e1 80% de floresta preservada na Amaz\u00f4nia,&nbsp; e esse trabalho que fizemos demonstra que existem frentes de degrada\u00e7\u00e3o via fogo na Amaz\u00f4nia. Ou seja, a penetra\u00e7\u00e3o de fogo em \u00e1reas florestadas \u00e9 significativa o suficiente para causar degrada\u00e7\u00e3o. Mas o Fernando  Gabeira escreveu este final de semana que provavelmente nem o presidente acredita no que fala.&nbsp; Cedo ou tarde n\u00f3s teremos que nos confrontar com a necessidade de preservar o meio ambiente. &nbsp;Nesse exato momento n\u00e3o \u00e9 uma prioridade em nenhum n\u00edvel de governo, muito menos no governo federal. Os problemas come\u00e7am dentro do pr\u00f3prio Minist\u00e9rio do Meio Ambiente,&nbsp; onde h\u00e1 um negacionista do clima, uma pessoa que acredita que, acabando com todas as prote\u00e7\u00f5es, haver\u00e1 um tipo de facilidade econ\u00f4mica para o Brasil. Essa \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o que n\u00f3s temos pela frente nesse momento. E ela \u00e9 muito prejudicial para o Pa\u00eds. S\u00f3 que, cedo ou tarde, quando os grandes investidores, as grandes redes de supermercado&nbsp; europeias, mesmo chinesas, pararem de&nbsp; comprar no Brasil, ai provavelmente diante do imenso preju\u00edzo, teremos alguma quest\u00e3o colocada seriamente para o Brasil. Ser\u00e1 uma quest\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica. Ent\u00e3o todo esse estrago que est\u00e1 sendo feito nesse momento provavelmente ser\u00e1 conclu\u00eddo por uma grande a\u00e7\u00e3o vinda de fora e tamb\u00e9m de dentro para impor um modelo que n\u00e3o seja t\u00e3o degradador e destruidor do meio ambiente. Essa \u00e9 a minha expectativa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professor Marcos Pedlowski, um dos autores de artigo na Science\u00a0 sobre a Amaz\u00f4nia, fala sobre as consequ\u00eancias da degrada\u00e7\u00e3o da floresta O desmatamento e a degrada\u00e7\u00e3o das florestas tropicais podem estar por tr\u00e1s do surgimento de v\u00edrus potencialmente capazes de gerar pandemias, como \u00e9 o caso da Covid-19. \u00c9 o que acredita o professor Marcos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_eb_attr":"","ocean_post_layout":"","ocean_both_sidebars_style":"","ocean_both_sidebars_content_width":0,"ocean_both_sidebars_sidebars_width":0,"ocean_sidebar":"","ocean_second_sidebar":"","ocean_disable_margins":"enable","ocean_add_body_class":"","ocean_shortcode_before_top_bar":"","ocean_shortcode_after_top_bar":"","ocean_shortcode_before_header":"","ocean_shortcode_after_header":"","ocean_has_shortcode":"","ocean_shortcode_after_title":"","ocean_shortcode_before_footer_widgets":"","ocean_shortcode_after_footer_widgets":"","ocean_shortcode_before_footer_bottom":"","ocean_shortcode_after_footer_bottom":"","ocean_display_top_bar":"default","ocean_display_header":"default","ocean_header_style":"","ocean_center_header_left_menu":"","ocean_custom_header_template":"","ocean_custom_logo":0,"ocean_custom_retina_logo":0,"ocean_custom_logo_max_width":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_width":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_width":0,"ocean_custom_logo_max_height":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_height":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_height":0,"ocean_header_custom_menu":"","ocean_menu_typo_font_family":"","ocean_menu_typo_font_subset":"","ocean_menu_typo_font_size":0,"ocean_menu_typo_font_size_tablet":0,"ocean_menu_typo_font_size_mobile":0,"ocean_menu_typo_font_size_unit":"px","ocean_menu_typo_font_weight":"","ocean_menu_typo_font_weight_tablet":"","ocean_menu_typo_font_weight_mobile":"","ocean_menu_typo_transform":"","ocean_menu_typo_transform_tablet":"","ocean_menu_typo_transform_mobile":"","ocean_menu_typo_line_height":0,"ocean_menu_typo_line_height_tablet":0,"ocean_menu_typo_line_height_mobile":0,"ocean_menu_typo_line_height_unit":"","ocean_menu_typo_spacing":0,"ocean_menu_typo_spacing_tablet":0,"ocean_menu_typo_spacing_mobile":0,"ocean_menu_typo_spacing_unit":"","ocean_menu_link_color":"","ocean_menu_link_color_hover":"","ocean_menu_link_color_active":"","ocean_menu_link_background":"","ocean_menu_link_hover_background":"","ocean_menu_link_active_background":"","ocean_menu_social_links_bg":"","ocean_menu_social_hover_links_bg":"","ocean_menu_social_links_color":"","ocean_menu_social_hover_links_color":"","ocean_disable_title":"default","ocean_disable_heading":"default","ocean_post_title":"","ocean_post_subheading":"","ocean_post_title_style":"","ocean_post_title_background_color":"","ocean_post_title_background":0,"ocean_post_title_bg_image_position":"","ocean_post_title_bg_image_attachment":"","ocean_post_title_bg_image_repeat":"","ocean_post_title_bg_image_size":"","ocean_post_title_height":0,"ocean_post_title_bg_overlay":0.5,"ocean_post_title_bg_overlay_color":"","ocean_disable_breadcrumbs":"default","ocean_breadcrumbs_color":"","ocean_breadcrumbs_separator_color":"","ocean_breadcrumbs_links_color":"","ocean_breadcrumbs_links_hover_color":"","ocean_display_footer_widgets":"default","ocean_display_footer_bottom":"default","ocean_custom_footer_template":"","ocean_post_oembed":"","ocean_post_self_hosted_media":"","ocean_post_video_embed":"","ocean_link_format":"","ocean_link_format_target":"self","ocean_quote_format":"","ocean_quote_format_link":"post","ocean_gallery_link_images":"off","ocean_gallery_id":[],"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-6704","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias","entry"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.5 - 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